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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Os clássicos

Um país civilizado é aquele cujos clássicos estão permanentemente disponíveis, seja em edições de referência, seja em edições acessíveis ao grande público mas assentes em textos rigorosamente fixados. Alguma coisa tem sido feita, mérito de alguns investigadores, universidades e casas editoras. A Imprensa Nacional tem cumprido o seu papel. No entanto, permanecem, indesculpavelmente, algumas zonas de sombra. Uma delas é Alexandre Herculano. Figura incontornável da literatura e da historiografia portuguesas, não tem no mercado livreiro actual edições de referência dignas desse nome. As edições das suas obras dirigidas por Vitorino Nemésio encontram-se esgotadas, para já não falar da inexistência de uma autêntica obra completa, tarefa nunca concluída, permanecendo por editar muitos textos dispersos. Num período em que o romance histórico se tornou moda, a ausência de Herculano no nosso tempo é um mistério por esclarecer. O mesmo acontece com Almeida Garrett, do qual, no entanto, se iniciou a publicação da Edição Crítica (na INCM). Escândalo dos escândalos: de Camilo Castelo Branco não existe uma edição de conjunto (a edição da Lello não está, propriamente, ao alcance do grande público, dado o seu elevadíssimo custo e não é uma edição completa, muito menos crítica), sendo hoje inacessíveis muitos dos volumes das Obras dirigidas por Jacinto do Prado Coelho para a Parceria A. M. Pereira.
Para não ir além do século XX, autores como Fialho de Almeida e Ramalho Ortigão tornaram-se invisíveis, dado o desparecimento das edições da Livraria Clássica Editora.
Valham-nos os alfarrabistas e os recentemente por mim descobertos leilões na Net.


(Edição crítica do Eurico - já a tinha e comprei outra para oferecer ao meu primo Xico)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Agustina


Hoje que Agustina faz anos, adquiri uma das suas «obras invisíveis». Quando me tornei leitor de Agustina Bessa-Luís - em 1982, ano de Os Meninos de Ouro - sempre persegui fervorosamente o livro Embaixada a Calígula, editado em 1961 pela Livraria Bertrand. Nunca o encontrei. O facto de ser um livro de «literatura de viagens» e o facto de parte substancial da obra se fixar em Itália, outra das minhas obsessões - tudo isso me compelia para a obra e ela era inacessível.
Foi agora reeditada no âmbito da Opera Omnia em boa hora editada pela Guimarães.
Vou ler...








Esta era a capa original da edição que não se encontra em lado nenhum

domingo, 13 de setembro de 2009

Honras de Panteão


Mas porque razão não teve Jorge de Sena Honras de Panteão?

sábado, 12 de setembro de 2009

Jorge de Sena - Regresso à Pátria


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya (25/6/1959), in Metamorfoses, Lisboa, 1963

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Dia de Portugal, Dia de Camões

Um país que tem como dia nacional o dia do seu poeta nacional. Um país que tem um poeta que fundou a língua e fundou a pátria. Um país que é Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Fernanda Botelho (1926-2007)


"Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.

A geométrica forma dos meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
- as minhas coordenadas."

As Coordenadas Líricas (1951)

Da Autora, lembro-me de três romances - Calendário Privado, Xerazade e os Outros e Lourenço é Nome de Jogral - (que sempre aproximarei de um certo Abelaira) e da sua longa ausência: entre 71 e 97 nada publicou. Pertencendo ao grupo de escritores definitivamente consagrados aquando da Revolução, só treze anos depois desta volta a publicar. Mas isso já não acompanhei. A sua poesia, escassa mas sempre saudada - especialmente pelo seu companheiro de geração David Mourão-Ferreira (cf. Vinte Poetas Contemporâneos) - é antologiada por Jorge de Sena nas Líricas Portuguesas bem como por Maria Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro (Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977), que aliás transcrevem poemas dispersos (publicados na Távola Redonda (1952) e no Graal-II (1956)) .

A revisitar. Tentar ler os seus romances que nunca li: O Ângulo Raso, A Gata e a Fábula e Terra Sem Música. Os dos anos 80 e 90 talvez não valha a pena.