Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...
Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
A minha terra no Bollettino da Sala Stampa della Santa Sede, de 14/03/2009! Eis o comunicado:
«NOMINA DELL’INVIATO SPECIALE ALLA CELEBRAZIONE DEL 50° ANNIVERSARIO DELL’INAUGURAZIONE DEL SANTUARIO DI CRISTO RE (ALMADA, PORTOGALLO, 17 MAGGIO 2009)
Il Santo Padre ha nominato l’Em.mo Card. José Saraiva Martins, C.M.F., Prefetto emerito della Congregazione delle Cause dei Santi, Suo Inviato Speciale alla celebrazione del 50° anniversario dell’inaugurazione del Santuario di Cristo Re ad Almada (Portogallo) il 17 maggio 2009.»
A revisitar. Agora que a Ficção Científica anda tão arredada do nosso horizonte cultural e tão confundida, nas nossas livrarias, com o Fantástico, o Gótico e etc.
Na Rua Barros Queirós, em Lisboa, existe este sinal que sempre me intrigou pelo seu carácter irrepetido em qualquer outra rua de Lisboa ou de qualquer outra cidade que eu conheça. Eu sei que o Código da Estrada se aplica aos peões, mas esta manifestação de excesso de zelo - que, pelo que sei, é muito antiga - chega a ser tocante.
Não costumo ler livros de «jornalismo de investigação». Qualquer coisa na transposição do jornal ou da revista para o formato livro desperta em mim um cuidado redobrado. Afinal, a charlatanice é sempre possível, sobretudo num meio em que não há conselhos de redacção, ERC (acho eu!) ou controlo dos pares a intervir. Claro que tudo isto é um disparate: há grandes livros de jornalismo de investigação nos países civilizados, sobretudo anglo-saxónicos, e nunca será demais lembrar esse livro seminal que é In Cold Blood de Truman Capote. Em Portugal há pouco e não é bom. Acabei de ler Em Nome de Deus, de David Yallop (2006) sobre a morte do pobre João Paulo I. As teorias da conspiração nunca me interessaram particularmente e acabam por ser frequentemente ridículas. Neste caso, o livro é convincente, reunindo o Autor matéria factual - não diria probatória, mas enfim - suficiente e, apesar de me ter perdido no emaranhado de relações - P2, Opus Dei, bancos, investimentos, financiamentos, pessoas - a trama acaba por ser convincente. A lição é conhecida: os responsáveis pela morte serão altos dignitários da Cúria Romana, entre os quais o Cardeal Villot, à época Secretário de Estado, Marcinkus, chefe do «Banco do Vaticano», P2 e tutti quanti. Interessante é a crítica feroz a João Paulo II, conhecedor das mudanças que o seu Predecessor pretendia operar e causa eficiente da sua morte, por nada ter feito para apurar a verdade e, pelo contrário, de ter mantido e promovido alguns dos responsáveis pelo assassinato do Papa Luciani. «Woytila nada fez. Temos um papa que censura publicamente os padres da Nicarágua pelo seu envolvimento na política e que, ao mesmo tempo, abençoa a entrega, secreta e ilegal, de grandes somas ao Solidariedade. É um papado com dois padrões - um para o papa e outro para o resto da humanidade. O papado de João Paulo II tem sido uma benesse para os traficantes, os corruptos, para a ladroagem internacional [...] mantendo, simultaneamente, uma imagem altamente propagandeada, à laia de estrela rock. Os homens que estão por detrás do «beijoqueiro das pistas de aterragem» têm por função garantir a continuação do negócio de sempre e velar para que os lucros aumentem.» (p. 365 da ed. Dom Quixote).
Muito poucas pessoas conhecem Dona Ivone Lara, uma das maiores compositoras brasileiras, autora de «Sonho Meu» e «Alguém me avisou», melhor conhecidas pelas interpretações de Maria Bethânia, Gal, Caetano e Gil et al.
A balada de Coimbra, erradamente chamada de «fado».
É insuportável: as vozes mal impostadas, o poemazito tosco (excepção feita a Manuel Alegre e a José Afonso, bem como aos autores da presença), a postura ridiculamente hierática, um certo e nunca assumido machismo, o derrame, os "portamentos", a própria ideia de Academia de antanho, a tricana, a «Samaritana», o «Hilário». Um horror!
É claro que haverá sempre José Afonso. Ao resto, mesmo aos cantores mais celebrados - a própria Amália cantou a canção de Coimbra - algo em mim é incapaz de aderir.
As reivindicações dos professores começaram por ser mais do que justas. A divisão da carreira entre professores e professores titulares, em si acertada, naufragou num iníquo primeiro concurso de provimento em que um incrível sistema de pontuação exilou grande parte dos melhores professores num casulo de desmotivação e de sentimento de profunda injustiça. O modelo de avaliação do desempenho - burocrático, inefectivo - deu cabo do resto. O facto de não incidir nas competências científico-didácticas; o peso que começou por ser dado ao abandono e ao insucesso dos alunos; a mera possibilidade de os pais intervirem no processo; o poder-se ser avaliado por docentes de outras áreas disciplinares; o facto de haver docentes a ser avaliados por outros com habilitação académica inferior à sua - tudo isso concorreu para o completo desprestígio deste sistema de avaliação do desempenho docente. Por outro lado, num país em que a administração central tende a ser hiper-regulamentadora, permitiu-se que as escolas regulamentassem elas próprias em demasia em sede de avaliação do desempenho a tal ponto que a equidade e a justiça podem ser postas em causa. No entanto, o modelo provisório pode e deve ser aplicado pelas escolas. Em primeiro lugar, porque a avaliação do desempenho não é um direito, mas um dever. Em segundo, porque os prejuízos da sua não aplicação são superiores ao da sua aplicação. Finalmente, porque na actual crise nacional e mundial, os professores têm emprego que, ao contrário do que por vezes se apregoa, está longe de ser mal pago. Quando todos os dias fecham empresas, não querer ser avaliado no desempenho de um emprego que se tem é, no mínimo, ridículo.