quarta-feira, 14 de julho de 2010

Braga, a Idolátrica

Regressado de Braga, onde fui assistir a um seminário sobre Educação, relembro o célebre texto do Pacheco:

"Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas."


Luiz Pacheco, O Libertino Passei por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (texto integral, aqui)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Simplex


A propósito do recente e já tradicional despacho de organização do ano lectivo. Muitas vezes tem de ser o próprio Estado a dizer aos seus "repetidores" - mais papistas do que o próprio Papa - o óbvio:

"6.º -A
Redução das tarefas administrativas

1 — A marcação e realização das reuniões previstas no n.º 2 do artigo 2.º do presente despacho e da alínea c) do n.º 3 do artigo 82.º do ECD deve, para o reforço da sua eficácia, eficiência e garantia do necessário tempo para o trabalho dos docentes a nível individual, ser precedida:
a) Da ponderação da efectiva necessidade da sua realização e da possibilidade de atingir os mesmos objectivos através de outros meios, desde que não se trate de matérias que careçam legalmente de deliberação do órgão em causa;
b) De uma planificação prévia da reunião, estabelecendo as horas de início e do fim e com ordens de trabalho exequíveis dentro desse período;
c) Da atribuição aos seus membros trabalho que possa ser previamente realizado e que permita agilizar o funcionamento dessas reuniões;
d) Do estabelecimento de um sistema de rigoroso controlo na gestão do tempo de forma a cumprir a planificação.
2 — Os órgãos dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, e bem assim as respectivas estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica, devem:
a) Evitar a exigência ao pessoal docente de documentos que não estejam legal ou regulamentarmente previstos;
b) Contribuir para que os documentos exigidos aos docentes ou produzidos na escola tenham uma extensão o mais reduzida possível;
c) Assegurar que a escola só se envolve em projectos que se articulem com o respectivo projecto educativo.»

Espero que se continue a mudar as rotinas nas escolas portuguesas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Teresa Silva Carvalho

Cinco canções na voz da grande cantora, fadista e compositora Teresa Silva Carvalho - e lindíssima mulher -, infelizmente retirada e pouco recordada:

Barca bela, de Teresa Silva Cravalho com versos de Almeida Garrett
Litania para um Amor ausente, de Vitorino com versos de Luís Pignatelli
Mas que fresca mondadeira, de Vitorino








Recordarei sempre, da sua autoria Canção Grata - uma das melhores canções de sempre da música portuguesa - e Amar (embora um dos meus ódios de estimação seja Florbela Espanca). E, claro, Ó rama, ó que linda rama, com arranjos de Vitorino e Verdes São os Campos, de José Afonso com versos de Luís de Camões.

Ignomínias

Estes eram os juramentos impostos aos «servidores do Estado» no acto de posse. A primeira, constante da Lei n.º 1901, de 21 de Maio de 1935 - que só veio a ser expressamente revogada em 1975 - suscitou um famoso opúsculo de Fernando Pessoa: «As associações secretas». A segunda, constava do Decreto-Lei n.º 27003, de 14 de Setembro de 1936 e, por isso, ficou conhecido como a «declaração 27003». Ambas as declarações foram abolidas em 1969. O decreto que as abolia foi publicado no mesmo número do Diário do Governo que extinguia a PIDE e criava a Direcção-Geral de Segurança!
Há aquele dito sobre as moscas e a merda...

Muitos dos nossos melhores foram expulsos (aposentados ou demitidos) das nossas escolas e universidades por se terem recusado a prestar tal declaração ou por revelarem "espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política ou não dêem garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado": Agostinho da Silva,  Abel Salazar, Aurélio Quintanilha, Manuel Rodrigues Lapa, Sílvio Lima, Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Crabée Rocha, Aniceto Monteiro, Manuel Valadares e tantos outros. Não os podemos - porque não devemos - esquecer.

Os sinais dos tempos, I

Dei aulas durante 18 anos e um espectáculo recorrente, digamos que dos últimos 5 anos, era a pressa com que nas férias da Páscoa os meus alunos do 12.º ano iam tirar a carta. Razão? Porque não concebiam ir para a Universidade em transporte público. No meu tempo, na Cidade Universitária encontravam-se estacionados meia dúzia de carros, na melhor das hipóteses, dos senhores professores. Em poucos anos, tudo mudou. Mesmo o alargamento da rede do Metropolitano de Lisboa, a introdução do comboio na ponte 25 de Abril e a melhoria das embarcações da Transtejo, não incentivarem o uso do transporte público por parte dos jovens - que, por definição, não têm rendimentos do trabalho. Das outras regiões não sou competente para falar, mas parece-me ter havido um desinvestimento nas acessibilidades das linhas de Cascais e Sintra, bem como do Oeste.
Uma geração cujos bisavós andavam a pé ou de burro, os avós começaram pelos Mini, Renault 4 e Fiat 127 e os pais pelos Renault 5 e pelos Panda, inunda Lisboa de automóveis (presumo que nos outros pólos universitários se passe o mesmo), gasta o que não tem e o que não deve e concorre para o risco ambiental já elevadíssimo. Mesmo os meus alunos de Almada que ingressavam na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte de Caparica, não dispensava o "pópó". Vai ser giro ver esta gente apeada nos anos vindouros.

Diz acertadamennte o Eduardo Pitta: "Num país atrasado como Portugal, a cultura do automóvel subverteu o interesse colectivo. Em 1986, com a entrada na CEE, actual União, centenas de milhares de famílias deram o salto da carroça para o Fiat 127. Não teria mal se, em simultâneo, os sucessivos governos, autarcas de todas as cores e poderes fáticos não tivessem aproveitado o upgrade de motorização para encerrar linhas de caminho de ferro e reduzir drasticamente a rede de carreiras rodoviárias."

Chapeau!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Saramago na Playboy


(Com a devida vénia ao Cadeirão Voltaire)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Descobertas


Um grande sítio: Classica Digitalia

*

Uma grande iniciativa de Pedro Almeida Vieira: uma base de dados do romance histórico português.

George Harrison - Here Comes The Sun, de George Harrison (The Beatles, Abbey Road - 1969)



A propósito do calor de ananases

A criança, a avó, as tias, o pai dela e a russa namorada dele



Rica criança que rica ficará

Pobre criança que crescerá entre tal gente

(Mais valia deixá-lo aos cuidados de Marge Simpson)

domingo, 4 de julho de 2010

Eça de Queirós - Correspondência de Fradique Mendes

Hoje, que está tanto calor - «um calor de ananases» - relembro o Eça:

"Pela escada, o poeta das LAPIDÁRIAS aludiu ao tórrido calor de Agosto. E eu que nesse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa--deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:
- Sim, está de escachar!
E ainda o torpe som não morrera, já uma aflição me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria, assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista das LAPIDÁRIAS. O homem que conversara com Hugo à beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: - «é de rachar»! «está de ananases»! «derrete os untos»!... Atravessei ali uma dessas angústias atrozes e grotescas, que, aos vinte anos, quando se começa a vida e a literatura, vincam a alma - e jamais esquecem."

(da 1.ª ed. (1900), exemplar da Biblioteca Nacional)

The Beatles - A Hard Day's Night (1964)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Passagens Canónicas V - Ultimatum britânico


"O Governo de Sua Majestade Britânica não pode aceitar, como satisfatórias ou suficientes, as seguranças dadas pelo Governo Português, tais como as interpreta.
O Cônsul interino de Sua Majestade em Moçambique telegrafou, citando o próprio major Serpa Pinto, que a expedição estava ainda ocupando o Chire, e que Katunga e outros lugares mais no território dos Makololos iam ser fortificados e receberiam guarnições. O que o Governo de Sua Majestade deseja e em que mais insiste é no seguinte:
Que se enviem ao governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Makololos e Mashonas se retirem.
O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias.
Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa, com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade, Enchantress, está em Vigo esperando as suas ordens.

Legação Britânica, 11 de Janeiro de 1890."

O legado de Maria de Lurdes Rodrigues

A defesa da escola pública - contras as diversas corporações que a parasitam -, a revalorização da educação pré-escolar e do 1.º ciclo do ensino básico, as actividades de enriquecimento curricular, com a introdução do Ensino de Inglês no 1.º ciclo, os centros escolares e o encerramento de escolas obsoletas, a modernização do parque escolar do ensino secundário, o reforço da autonomia, os directores de escola, a introdução do princípio da diferenciação e da avaliação do desempenho docente, a avaliação externa das escolas, a ocupação plena dos tempos escolares e as aulas de substituição, o travão ao «ministério-Fenprof», a educação especial, as Novas Oportunidades (cursos de educação e formação, cursos profissionais, formação de adultos, reconhecimento e validação de competências), as transferências de competências para as autarquias, etc., etc., etc.


Em nome de tudo isto, também houve muita trapalhada: a confusão entre o princípio da senioridade e a criação de «professores titulares», a efectiva burocratização da avaliação do desempenho docente, o destemperado Estatuto do Aluno, ainda que o seu objectivo último fosse a defesa dos interesses dos estudantes.
Destacaria do seu legado a noção muito nítida de que o sistema educativo deve servir aqueles para os quais está concebido - os alunos (por isso, não é normal os alunos irem à escola e não terem aulas) - e não as diversas corporações, administração educativa incluida.

Registos Centrais

Removido o post Sarita Montiel - El Relicario, por alegada violação dos direitos de autor.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Una, grande y libre?

Dizia-me ontem, por mail, o meu amigo basco, Fernan:


"Mañana juegan Portugal y España, si gana Portugal, lo celebraré mucho, y cuando vaya a Lisboa lo celebraremos, invito yo. En el país vasco la mayoria irá con Portugal. Todavía recuerdo el gol de Nuno Gomes contra España en la eurocopa. Fue fantastico!"

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Para a História da Educação em Portugal, III - Cartilha Maternal


Hoje, por obra e graça de Maria do Rosário Pedreira, lembrei-me do tormento que os Pedros passavam por causa da Cartilha Maternal de João de Deus. Os adultos insistiam em repetir ad nauseam, sempre que encontravam um: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?». Mas, parafraseando o Álvaro de Campos, «quem me dera no tempo» em que me atormentavam - e eu dava por isso - com aquela malfadada frase!

Se não agora, quando?

"A introdução de portagens nas Scut, a partir da próxima quinta-feira (não será o chumbo dos chips que impedirá a sua cobrança: quem tem Via Verde fica com o assunto resolvido, quem não tem é fotografado), é o momento ideal para os falcões da Invicta darem ao Presidente da República um pretexto para dissolver o Parlamento. Como Cavaco só o poderá fazer até 9 de Setembro, convém apressar a tranquibérnia... Lembrar que Rui Rio enfatizou a possibilidade de um levantamento popular a Norte. Uma insurreição organizada das comissões de utentes, de molde a provocar resposta dos GOE, daria azo a uma crise política de consequências imprevisíveis. Há quem aposte nessa solução, sobretudo agora que as sondagens parecem estender o tapete vermelho ao PSD.
Naturalmente, os mais avisados dentro do PSD sabem que ainda não é chegado o momento. Lá para Outubro ou Novembro de 2011, talvez. Antes é preciso obrigar o PS a acabar o trabalho sujo. E só depois [Não temos nada com isso. Foram decisões do eng. Sócrates.] então dividir o bolo. Ah!, como seria instrutivo vê-los a tomar hoje mesmo as rédeas do poder." (Eduardo Pitta)

domingo, 27 de junho de 2010

Protocolo

Já que tanto disparate tem sido dito e para arrumar - pela minha parte - a questão da ausência do Cavaco no funeral de José Saramago, gostaria de lembrar o que reza o n.º 3 do artigo 10.º da Lei das precedências do Protocolo do Estado Português:

"[...] o Presidente da República não pode fazer-se representar por ninguém.»

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lupicínio Rodrigues - Vingança, de Lupicínio Rodrigues



"Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,

[...]

Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar"

Há dois grandes textos sobre a vingança. Um, é este samba-canção de Lupicínio. O outro, como é sabido, é O Conde de Monte-Cristo. E, claro, há a Medeia (mas isso é outra história).

quinta-feira, 24 de junho de 2010