sexta-feira, 30 de julho de 2010

Fernando Savater sobre a proibição das corridas de touros na Catalunha


Brilhante Fernando Savater, na sequência, aliás, de vários textos seus sobre o assunto:

"Por supuesto, no es el caso presentar argumentos a favor o en contra de mantener las corridas de toros, como suele decirse: quienes tienen que justificar la insólita medida son los que han decidido prohibirlas parlamentariamente. Hay gente a la que le gustan los toros y otros muchos que no han pisado una plaza en su vida o que sienten repugnancia por la fiesta: es la diversidad de los hijos de Dios. Pero que un Parlamento prohíba una costumbre arraigada, una industria, una forma de vida popular... es algo que necesita una argumentación muy concluyente. La que hemos oído hasta la fecha dista mucho de serlo.
¿Son las corridas una forma de maltrato animal? A los animales domésticos se les maltrata cuando no se les trata de manera acorde con el fin para el que fueron criados. No es maltrato obtener huevos de las gallinas, jamones del cerdo, velocidad del caballo o bravura del toro. Todos esos animales y tantos otros no son fruto de la mera evolución sino del designio humano (precisamente estudiar la cría de animales domésticos inspiró a Darwin El origen de las especies). Lo que en la naturaleza es resultado de tanteos azarosos combinados con circunstancias ambientales, en los animales que viven en simbiosis con el hombre es logro de un proyecto más o menos definido. Tratar bien a un toro de lidia consiste precisamente en lidiarlo. No hace falta insistir en que, comparada con la existencia de muchos animales de nuestras granjas o nuestros laboratorios, la vida de los toros es principesca. Y su muerte luchando en la plaza no desmiente ese privilegio, lo mismo que seguimos considerando en conjunto afortunado a un millonario que tras sesenta o setenta años a cuerpo de rey pasa su último mes padeciendo en la UCI.
¿Son inmorales las corridas de toros? Dejemos de lado esa sandez de que el aficionado disfruta con la crueldad y el sufrimiento que ve en la plaza: si lo que quisiera era ver sufrir, le bastaría con pasearse por el matadero municipal. Puede que haya muchos que no encuentren simbolismo ni arte en las corridas, pero no tienen derecho a establecer que nadie sano de espíritu puede verlos allí. La sensibilidad o el gusto estético (esa "estética de la generosidad" de la que hablaba Nietzsche) deben regular nuestra relación compasiva con los animales, pero desde luego no es una cuestión ética ni de derechos humanos (no hay derechos "animales"), pues la moral trata de las relaciones con nuestros semejantes y no con el resto de la naturaleza. Precisamente la ética es el reconocimiento de la excepcionalidad de la libertad racional en el mundo de las necesidades y los instintos. No creo que cambiar esta tradición occidental, que va de Aristóteles a Kant, por un conductismo zoófilo espiritualizado con pinceladas de budismo al baño María suponga progreso en ningún sentido respetable del término ni mucho menos que constituya una obligación cívica.
¿Es papel de un Parlamento establecer pautas de comportamiento moral para sus ciudadanos, por ejemplo diciéndoles cómo deben vestirse para ser "dignos" y "dignas" o a que espectáculos no deber ir para ser compasivos como es debido? ¿Debe un Parlamento laico, no teocrático, establecer la norma ética general obligatoria o más bien debe institucionalizar un marco legal para que convivan diversas morales y cada cual pueda ir al cielo o al infierno por el camino que prefiera? A mí esta prohibición de los toros en Cataluña me recuerda tantas otras recomendaciones o prohibiciones semejantes del Estatut, cuya característica legal más notable es un intervencionismo realmente maníaco en los aspectos triviales o privados de la vida de los ciudadanos.
En cambio no estoy de acuerdo en que se trate de una toma de postura antiespañola. No señor, todo lo contrario. El Parlamento de Cataluña prohíbe los toros pero de paso reinventa el Santo Oficio, con lo cual se mantiene dentro de la tradición de la España más castiza y ortodoxa." (El Pais, 20/07/2010)

Pino Donaggio - Io che non vivo senza te



A tradição melódica da canção italiana

terça-feira, 27 de julho de 2010

A. O. S. (m. 27/07/1970 - 27/07/2010)

Nenhuma virtude. Nenhuma!

Divas, X


Divas, IX



Sem ofensa à sacrossanta memória de Katharine Hepburn - Meryl é a maior actriz da história do cinema

Divas, VIII


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os instalados

Pacheco Pereira, como quase sempre, certeiro:

"Olhando para os encontros dos “artistas” que venceram a Ministra encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas “indústrias culturais”, a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da “cultura”, da “criação”, da “arte”.
Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse do público, visto que estes ramos de “cultura” e “arte” abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho pelo comum dos portugueses.
É verdade que a verba que gastam do erário público não é elevada, mas é dinheiro dos contribuintes que tem direito de saber onde e com quem é gasta. Os grupos de “artistas”, principalmente na área do teatro e da “performance”, empregam um número significativo de pessoas, cuja trabalho individual é desconhecido e não avaliado. São “artistas” e como se auto-classificam como tal, quase tudo lhes é permitido, e respondem com enorme arrogância a qualquer avaliação.
Tanto “artista”, tanto “criador”, que nós temos por metro quadrado! O modo como se apresentam tem toda a prosápia burocrática e cultural."

Mais: aqui

P.S.: Não sou contra os subsídios, que existem em qualquer país civilizado. Sou a favor da rigorosa avaliação das candidaturas, por um comité de sábios, como em qualquer país civilizado. Sou a favor de contrapartidas, que se traduzam em real descentralização, prestação de serviços, designdamente às escolas e educação pela arte. Sou contra a arrogância de quem acha que nada tem de explicar e fundamentar só porque é... artista... Há uns dias, uma tal Filomena Cautela - aliás, boa actriz e bonita rapariga, rebitesa e empertigadamente interessante - ralhava na televisão pública (onde tem um programa, pago por nós todos) a exigir subsidiação a quem não se vende aos interesses comerciais. Está-se mesmo a ver que o programa em que ela pontifica e ganha o seu quinhão para o sustento não é «comercial»... - deve ser «artístico»!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Maria Teresa de Noronha (Condessa de Sabrosa) - Minhas Saudades



Fahrenheit 451, de François Truffaut


Revisionismo constitucional, III

Contributo para a revisão constitucional:

"O artigo 11.º da Constituição da República Portuguesa passa a ter a seguinte redacção:

Artigo 11.º
(Símbolos nacionais, língua oficial e capital)

1. ...................................................................................
2. ...................................................................................
3. ...................................................................................
4. A capital de Portugal é a cidade de Lisboa."

Assim seja.

Revisionismo constitucional, II

Um dos grandes equívocos do actual regime é chamar ao nosso sistema constitucional de semi-presidencialista; de facto ele é, desde 1982, semi-parlamentar, na exacta medida em que, nessa 1.ª revisão, foi retirado ao Presidente da República o poder de demitir livremente o Governo.

domingo, 18 de julho de 2010

revisionismo constitucional, I

Ter como autor de proposta de revisão da Constituição da República o presidente da Causa Real e membro do conselho privado do duque de Bragança não lembra ao diabo.

P.S.: O Paulo Guinote também o notou: "não deixa de ser delicioso ver um monárquico a definir as regras para o melhor funcionamento da República".

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Braga, a Idolátrica

Regressado de Braga, onde fui assistir a um seminário sobre Educação, relembro o célebre texto do Pacheco:

"Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas."


Luiz Pacheco, O Libertino Passei por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (texto integral, aqui)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Simplex


A propósito do recente e já tradicional despacho de organização do ano lectivo. Muitas vezes tem de ser o próprio Estado a dizer aos seus "repetidores" - mais papistas do que o próprio Papa - o óbvio:

"6.º -A
Redução das tarefas administrativas

1 — A marcação e realização das reuniões previstas no n.º 2 do artigo 2.º do presente despacho e da alínea c) do n.º 3 do artigo 82.º do ECD deve, para o reforço da sua eficácia, eficiência e garantia do necessário tempo para o trabalho dos docentes a nível individual, ser precedida:
a) Da ponderação da efectiva necessidade da sua realização e da possibilidade de atingir os mesmos objectivos através de outros meios, desde que não se trate de matérias que careçam legalmente de deliberação do órgão em causa;
b) De uma planificação prévia da reunião, estabelecendo as horas de início e do fim e com ordens de trabalho exequíveis dentro desse período;
c) Da atribuição aos seus membros trabalho que possa ser previamente realizado e que permita agilizar o funcionamento dessas reuniões;
d) Do estabelecimento de um sistema de rigoroso controlo na gestão do tempo de forma a cumprir a planificação.
2 — Os órgãos dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, e bem assim as respectivas estruturas de coordenação educativa e supervisão pedagógica, devem:
a) Evitar a exigência ao pessoal docente de documentos que não estejam legal ou regulamentarmente previstos;
b) Contribuir para que os documentos exigidos aos docentes ou produzidos na escola tenham uma extensão o mais reduzida possível;
c) Assegurar que a escola só se envolve em projectos que se articulem com o respectivo projecto educativo.»

Espero que se continue a mudar as rotinas nas escolas portuguesas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Teresa Silva Carvalho

Cinco canções na voz da grande cantora, fadista e compositora Teresa Silva Carvalho - e lindíssima mulher -, infelizmente retirada e pouco recordada:

Barca bela, de Teresa Silva Cravalho com versos de Almeida Garrett
Litania para um Amor ausente, de Vitorino com versos de Luís Pignatelli
Mas que fresca mondadeira, de Vitorino








Recordarei sempre, da sua autoria Canção Grata - uma das melhores canções de sempre da música portuguesa - e Amar (embora um dos meus ódios de estimação seja Florbela Espanca). E, claro, Ó rama, ó que linda rama, com arranjos de Vitorino e Verdes São os Campos, de José Afonso com versos de Luís de Camões.

Ignomínias

Estes eram os juramentos impostos aos «servidores do Estado» no acto de posse. A primeira, constante da Lei n.º 1901, de 21 de Maio de 1935 - que só veio a ser expressamente revogada em 1975 - suscitou um famoso opúsculo de Fernando Pessoa: «As associações secretas». A segunda, constava do Decreto-Lei n.º 27003, de 14 de Setembro de 1936 e, por isso, ficou conhecido como a «declaração 27003». Ambas as declarações foram abolidas em 1969. O decreto que as abolia foi publicado no mesmo número do Diário do Governo que extinguia a PIDE e criava a Direcção-Geral de Segurança!
Há aquele dito sobre as moscas e a merda...

Muitos dos nossos melhores foram expulsos (aposentados ou demitidos) das nossas escolas e universidades por se terem recusado a prestar tal declaração ou por revelarem "espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política ou não dêem garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado": Agostinho da Silva,  Abel Salazar, Aurélio Quintanilha, Manuel Rodrigues Lapa, Sílvio Lima, Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Crabée Rocha, Aniceto Monteiro, Manuel Valadares e tantos outros. Não os podemos - porque não devemos - esquecer.

Os sinais dos tempos, I

Dei aulas durante 18 anos e um espectáculo recorrente, digamos que dos últimos 5 anos, era a pressa com que nas férias da Páscoa os meus alunos do 12.º ano iam tirar a carta. Razão? Porque não concebiam ir para a Universidade em transporte público. No meu tempo, na Cidade Universitária encontravam-se estacionados meia dúzia de carros, na melhor das hipóteses, dos senhores professores. Em poucos anos, tudo mudou. Mesmo o alargamento da rede do Metropolitano de Lisboa, a introdução do comboio na ponte 25 de Abril e a melhoria das embarcações da Transtejo, não incentivarem o uso do transporte público por parte dos jovens - que, por definição, não têm rendimentos do trabalho. Das outras regiões não sou competente para falar, mas parece-me ter havido um desinvestimento nas acessibilidades das linhas de Cascais e Sintra, bem como do Oeste.
Uma geração cujos bisavós andavam a pé ou de burro, os avós começaram pelos Mini, Renault 4 e Fiat 127 e os pais pelos Renault 5 e pelos Panda, inunda Lisboa de automóveis (presumo que nos outros pólos universitários se passe o mesmo), gasta o que não tem e o que não deve e concorre para o risco ambiental já elevadíssimo. Mesmo os meus alunos de Almada que ingressavam na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte de Caparica, não dispensava o "pópó". Vai ser giro ver esta gente apeada nos anos vindouros.

Diz acertadamennte o Eduardo Pitta: "Num país atrasado como Portugal, a cultura do automóvel subverteu o interesse colectivo. Em 1986, com a entrada na CEE, actual União, centenas de milhares de famílias deram o salto da carroça para o Fiat 127. Não teria mal se, em simultâneo, os sucessivos governos, autarcas de todas as cores e poderes fáticos não tivessem aproveitado o upgrade de motorização para encerrar linhas de caminho de ferro e reduzir drasticamente a rede de carreiras rodoviárias."

Chapeau!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Saramago na Playboy


(Com a devida vénia ao Cadeirão Voltaire)