quinta-feira, 1 de julho de 2010

Passagens Canónicas V - Ultimatum britânico


"O Governo de Sua Majestade Britânica não pode aceitar, como satisfatórias ou suficientes, as seguranças dadas pelo Governo Português, tais como as interpreta.
O Cônsul interino de Sua Majestade em Moçambique telegrafou, citando o próprio major Serpa Pinto, que a expedição estava ainda ocupando o Chire, e que Katunga e outros lugares mais no território dos Makololos iam ser fortificados e receberiam guarnições. O que o Governo de Sua Majestade deseja e em que mais insiste é no seguinte:
Que se enviem ao governador de Moçambique instruções telegráficas imediatas para que todas e quaisquer forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Makololos e Mashonas se retirem.
O Governo de Sua Majestade entende que, sem isto, as seguranças dadas pelo Governo Português são ilusórias.
Mr. Petre ver-se-á obrigado, à vista das suas instruções, a deixar imediatamente Lisboa, com todos os membros da sua legação, se uma resposta satisfatória à precedente intimação não for por ele recebida esta tarde; e o navio de Sua Majestade, Enchantress, está em Vigo esperando as suas ordens.

Legação Britânica, 11 de Janeiro de 1890."

O legado de Maria de Lurdes Rodrigues

A defesa da escola pública - contras as diversas corporações que a parasitam -, a revalorização da educação pré-escolar e do 1.º ciclo do ensino básico, as actividades de enriquecimento curricular, com a introdução do Ensino de Inglês no 1.º ciclo, os centros escolares e o encerramento de escolas obsoletas, a modernização do parque escolar do ensino secundário, o reforço da autonomia, os directores de escola, a introdução do princípio da diferenciação e da avaliação do desempenho docente, a avaliação externa das escolas, a ocupação plena dos tempos escolares e as aulas de substituição, o travão ao «ministério-Fenprof», a educação especial, as Novas Oportunidades (cursos de educação e formação, cursos profissionais, formação de adultos, reconhecimento e validação de competências), as transferências de competências para as autarquias, etc., etc., etc.


Em nome de tudo isto, também houve muita trapalhada: a confusão entre o princípio da senioridade e a criação de «professores titulares», a efectiva burocratização da avaliação do desempenho docente, o destemperado Estatuto do Aluno, ainda que o seu objectivo último fosse a defesa dos interesses dos estudantes.
Destacaria do seu legado a noção muito nítida de que o sistema educativo deve servir aqueles para os quais está concebido - os alunos (por isso, não é normal os alunos irem à escola e não terem aulas) - e não as diversas corporações, administração educativa incluida.

Registos Centrais

Removido o post Sarita Montiel - El Relicario, por alegada violação dos direitos de autor.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Una, grande y libre?

Dizia-me ontem, por mail, o meu amigo basco, Fernan:


"Mañana juegan Portugal y España, si gana Portugal, lo celebraré mucho, y cuando vaya a Lisboa lo celebraremos, invito yo. En el país vasco la mayoria irá con Portugal. Todavía recuerdo el gol de Nuno Gomes contra España en la eurocopa. Fue fantastico!"

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Para a História da Educação em Portugal, III - Cartilha Maternal


Hoje, por obra e graça de Maria do Rosário Pedreira, lembrei-me do tormento que os Pedros passavam por causa da Cartilha Maternal de João de Deus. Os adultos insistiam em repetir ad nauseam, sempre que encontravam um: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?». Mas, parafraseando o Álvaro de Campos, «quem me dera no tempo» em que me atormentavam - e eu dava por isso - com aquela malfadada frase!

Se não agora, quando?

"A introdução de portagens nas Scut, a partir da próxima quinta-feira (não será o chumbo dos chips que impedirá a sua cobrança: quem tem Via Verde fica com o assunto resolvido, quem não tem é fotografado), é o momento ideal para os falcões da Invicta darem ao Presidente da República um pretexto para dissolver o Parlamento. Como Cavaco só o poderá fazer até 9 de Setembro, convém apressar a tranquibérnia... Lembrar que Rui Rio enfatizou a possibilidade de um levantamento popular a Norte. Uma insurreição organizada das comissões de utentes, de molde a provocar resposta dos GOE, daria azo a uma crise política de consequências imprevisíveis. Há quem aposte nessa solução, sobretudo agora que as sondagens parecem estender o tapete vermelho ao PSD.
Naturalmente, os mais avisados dentro do PSD sabem que ainda não é chegado o momento. Lá para Outubro ou Novembro de 2011, talvez. Antes é preciso obrigar o PS a acabar o trabalho sujo. E só depois [Não temos nada com isso. Foram decisões do eng. Sócrates.] então dividir o bolo. Ah!, como seria instrutivo vê-los a tomar hoje mesmo as rédeas do poder." (Eduardo Pitta)

domingo, 27 de junho de 2010

Protocolo

Já que tanto disparate tem sido dito e para arrumar - pela minha parte - a questão da ausência do Cavaco no funeral de José Saramago, gostaria de lembrar o que reza o n.º 3 do artigo 10.º da Lei das precedências do Protocolo do Estado Português:

"[...] o Presidente da República não pode fazer-se representar por ninguém.»

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lupicínio Rodrigues - Vingança, de Lupicínio Rodrigues



"Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,

[...]

Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar"

Há dois grandes textos sobre a vingança. Um, é este samba-canção de Lupicínio. O outro, como é sabido, é O Conde de Monte-Cristo. E, claro, há a Medeia (mas isso é outra história).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Leilão






Hoje descobri que venho num leilão!

Nota oficiosa

Ena, o Francisco José Viegas publicou uma observação minha de carácter teológico!

Há festa na minha terra

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não
Tal qual como os outros dias

(Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ditosa Pátria

"Estamos em vida fictícia como país independente. Somos como o sapateiro que se veste de príncipe no Entrudo. Pois bem! Comédia geral! Seja Portugal um teatro desde Monção ao Cabo da Roca!"


Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo (1866)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ídolos


Coluna, Chico Buarque e Eusébio

(com a devida vénia a Ana Cristina Leonardo)

Censuras

"Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Ásia & Europa, e não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade de navegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hua fição dos Deoses dos Gentios. (…) Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poético não tivemos por incoveniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salva a verdade da nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demónios."

Frei Bartolomeu Ferreira, O.P.

Saramago antes de Saramago



Lembro-me de ter visto A Noite no velho teatro da Academia Almadense pelo Grupo de Campolide - que ainda não se chamava Companhia de Teatro de Almada -, numa encenação de Joaquim Benite. Tinha uma fabulosa cenografia, simulando a redacção e impressão de um jornal e passava-se durante a noite do 25 de Abril de 1974. Nunca mais esqueci e até aí não sabia que o teatro podia ser tão "cinematográfico". 
Lembro que vi, logo depois, Que farei com este livro?, com Canto e Castro.
Da segunda peça retenho as idas de Camões à Inquisição e o famoso parecer de Frei Bartolomeu Ferreira, as actuações de Canto e Castro e de Ema Paul e o carácter datado do tom e do discurso.

domingo, 20 de junho de 2010

Na morte de Saramago

Um asco, o artigo "L'onnipotenza (presunta) del narratore" no  L'Osservatore Romano de hoje, a contrastar com o texto sereno da Igreja portuguesa: "O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura expressa o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura. José Saramago ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres.
Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar. O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença." (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura).

Muito bem, a blogosfera portuguesa - mesmo a de direita (31 de Armada, incluído; menos bem o Blasfémias).
Muito mal, o senhor Presidente da República, a mostrar a sua total falta de grandeza humana e de Estadista: "Sendo um momento importante para o Estado português, ninguém faria questão que lá estivessem o Aníbal ou o Cavaco. Mas o Presidente da República, esse, nunca poderia faltar à última homenagem ao único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa. A um dos mais importantes escritores do século XX. Àquele que, com Pessoa, atingiu maior notoriedade internacional. É incoerente decretar dois dias de luto nacional e depois estar ausente da cerimónia oficial.
Cavaco Silva mostrou este fim-de-semana que, mesmo no cargo que ocupa, não consegue ser mais do que ele próprio. Não consegue representar o País. E um Presidente que não está acima da sua pequenez, que não percebe a grandeza de um cargo que o transcende, é e será sempre um mau Presidente." (Daniel Oliveira).

Muito mal o pateta que dá pelo nome de Duarte Pio, a quem muita gente insiste em tratar por "dom". Mas ser infeliz é o seu destino.

Muito bem a selecção nacional e a federação portuguesa de futebol.

*

Um dia destes quero escrever sobre Saramago. O escritor venerado por tantos, de Eduardo Lourenço a George Steiner, de Harold Bloom a Susan Sontag, mas desprezado pelos medíocres que ninguém conhece do outro lado da sua própria rua.

Gostaria de destacar os belíssimos textos de Francisco José Viegas e de Manuel Gusmão. Transcrevo o do primeiro:
"A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua «intervenção cívica» — mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo, onde entrará Manual de Pintura e Caligrafia, por exemplo, um livro injustamente esquecido, e essa «trilogia do cânone» [Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a Cegueira] e  onde estão inscritas as linhas de quase toda a sua obra: a atenção aos pequenos personagens (quase anónimos, quase insignificantes), o absurdo da História, a ideia de epopeia, a fragilidade do humano e do humanismo.
Tanto em Levantado do Chão como em Memorial do Convento ou em Todos os Nomes, os seus grandes personagens são essencialmente humildes, anónimos e colhidos (e escondidos) da massa da multidão. Baltazar e Blimunda em vez do rei que manda construir o convento de Mafra; os camponeses e o cão atravessando os campos do Alentejo e ressuscitando no final, em vez dos «exemplos de classe"; uma mulher anónima e discreta que enfrenta a cegueira do mundo e interpreta as suas metáforas. Mesmo o amor, mesmo o amor: é uma das suas mais belas histórias de amor, a de História do Cerco de Lisboa, a que é vivida pela editora e pelo revisor — ele, mais uma vez, o homem anónimo, humilde, modesto, que representa toda a modéstia e toda a humildade dos homens e mulheres sem história (à maneira de Gogol; ou encarando o absurdo, como Kafka).
Creio, acreditei sempre — e escrevi-o — que Saramago era um homem extremamente religioso. Só um homem religioso pode rondar a blasfémia e interrogar directamente a figura de um Deus «humanamente injusto». O resto é polémica, passagem, indignações. O que passará à eternidade é isso: talento, trabalho, dedicação" (Francisco José Viegas).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)


Prémio Camões

Prémio da Associação de Críticos Portugueses
Prémio Cidade de Lisboa
Prémio PEN Clube Português
Prémio Literário Município de Lisboa
Prémio da Crítica (Associação Portuguesa de Críticos)
Prémio Dom Dinis
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores
Prémio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores)
Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE)

Prémio Grinzane-Cavour
Prémio Internacional Ennio Flaiano
Prémio do jornal The Independent
Prémio Internacional Literário Mondello (Palermo)
Prémio Literário Brancatti (Zafferana/Sicília)

A minha geração, 1

Para a krida

quarta-feira, 16 de junho de 2010

As sinecuras


A extinção dos governos civis é uma boa ideia. Não se percebe, sequer, a razão da sua permanência. Ou melhor, percebe-se: acabam por ser mais uns lugares para quem não conseguiu ser eleito Deputado, não arranjou lugar no Governo ou nos gabinetes ou não alcançou uma câmara municipal. Tendo perdido grande parte das suas competências próprias - a maior parte delas absorvidas pelas autarquias locais - permanecem algumas funções que podem ser desempenhadas por qualquer outro serviço existente, como seja a emissão de passaportes ou a autorização para o uso de alarmes. Esta foi, aliás, uma das últimas competências atribuídas ao órgão, como que a tentar dar-lhe algum conteúdo. Ridículo!
Pode não ser significativa a diminuição de despesa - governador, nalguns casos vice-governador, conselho, staff, o próprio serviço - mas daria um sinal quanto à necessidade de abolição de sinecuras injustificáveis.
Provavelmente, é necessário alterar a Constituição (artigo 291.º) mas a coisa pode resolver-se imediamente pela não designação de novos titulares e a distribuição das suas funções pelas lojas do cidadão, IMTT, municípios e freguesias, associações de municípios, juntas metropolitanas, outros serviços do Estado, etc.
Aliás, Lisboa ficou, de repetente, muito perto. Os governadores civis ficarão na memória dos povos e podem ser, sempre, revisitados - juntamente com os regedores - em Camilo, em Júlio Dinis ou n'A Ilustre Casa de Ramires de Eça.
(Bandeira do governador civil)