sábado, 24 de janeiro de 2009

Ditosa Pátria I

Uma das indignidades de que foram alvo os funcionários públicos - perdão, «Trabalhadores Que Exercem Funções Públicos», na newspeak socratista - foi o Certificado de Incapacidade Temporária, nova designação para o célebre Atestado Médico. Eu sei que havia abusos - continuarão! -, mas o novo regime instituído pelo Decreto-Lei nº 181/2007, de 9 de Maio transformou num Inferno a justificação de faltas por doença na Administração Pública. Ponha-se no lugar de um desgraçado, doente, que foi ao seu médico que, por acaso, não tem acordo com a ADSE. Ou vai ao hospital, centro de saúde ou coisa do género - e sabemos a maçada que é, para além de os entupirmos inutilmente. Vai mendigar o atestado submetendo-se, provavelmente, a novo exame médico, ou tem de ir a um médico convencionado com a ADSE, onde e quando puder ser.
Raramente se fala disto; a Ordem dos Médicos não fala disto. Afinal um médico não pode «atestar», embora o Estado lhe reconheça competência para «atestar» - com excepção das doenças dos seus pobres funcionários e agentes.
Ah, é verdade! O pobre doente ainda tem de ir munido do certificado, descarregado do sítio da Direcção-Geral de Protecção Social aos Funcionários e Agentes da Administração Pública (ADSE)!

São Paulo

Assisti hoje a uma magnífica conferência de José Tolentino de Mendonça sobre São Paulo. Antecipando a Festa da Conversão de S. Paulo (25 de Janeiro) aqui fica a extraordinária Carta a Filémon, na tradução dos Capuchinhos:
«Apresentação e saudação - 1Paulo, prisioneiro por causa de Cristo Jesus, e o irmão Timóteo, a Filémon, nosso querido colaborador, 2à irmã Ápia, a Arquipo, nosso companheiro de luta, e à igreja que se reúne em tua casa: 3a vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo!

Acção de graças - 4Dou graças ao meu Deus, lembrando-me sempre de ti nas minhas orações, 5por ouvir falar do teu amor e da tua fé: fé no Senhor Jesus e amor para com todos os santos. 6Que a tua comunhão de fé se torne eficaz, no reconhecimento de tudo aquilo que entre nós é considerado bom em relação a Cristo.
7De facto, foi grande a alegria e a consolação que tive com o teu amor, porque os corações dos santos foram reconfortados por meio de ti, irmão.

Pedido a respeito de Onésimo - 8Por isso, embora tenha toda a autoridade em Cristo para te impor o que mais convém, 9levado pelo amor, prefiro pedir como aquele que sou: Paulo, um ancião e, agora, até prisioneiro por causa de Cristo Jesus.
10Peço-te pelo meu filho, que gerei na prisão: Onésimo, 11que outrora te era inútil, mas agora é, para ti e para mim, bem útil. 12É ele que eu te envio: ele, isto é, o meu próprio coração.
13Eu bem desejava mantê-lo junto de mim, para, em vez de ti, se colocar ao meu serviço nas prisões que sofro por causa do evangelho. 14Porém, nada quero fazer sem o teu consentimento, para que o bem que fazes não seja por obrigação, mas de livre vontade.
15É que, afinal, talvez tenha sido por isto que ele foi afastado por breve tempo: para que o recebas para sempre, 16não já como escravo, mas muito mais do que um escravo: como irmão querido; isto especialmente para mim, quanto mais para ti, que com ele estás relacionado tanto humanamente como no Senhor.
17Se, pois, me consideras em comunhão contigo, recebe-o como a mim próprio. 18E se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve, põe isso na minha conta. 19Sou eu, Paulo, que o escrevo pela minha própria mão: serei eu a pagar. Isto, para não te dizer que me deves a tua própria pessoa.
20Sim, irmão, possa eu sentir-me satisfeito contigo no Senhor: reconforta o meu coração em Cristo. 21Escrevo-te porque confio na tua obediência: sei que até farás mais do que aquilo que digo. 22Mas, ao mesmo tempo, prepara também alojamento para mim, pois espero, graças às vossas orações, poder brevemente ser entregue a vós.

Saudações e bênção - 23Saúdam-te Epafras, meu companheiro de prisão em Cristo Jesus, 24assim como Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores.
25A graça do Senhor Jesus Cristo esteja convosco.»

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Escola Primária - 1.ª e 2.ª classes



Graças ao Santa Nostalgia, consegui rever os meus livros da primeira e segunda classes do ensino primário elementar, feitas em 1974-1975 e 1975-1976, mas com livros do tempo da «velha senhora» (ou do Velho Senhor). O mais espantoso é que só agora descobri que as ilustrações são de Maria Keil. Os livros das 3ª e 4ª classes já eram dos Novos Tempos. Mas nunca mais consegui vê-los...
A Secretaria-Geral do Ministério da Educação possui um Museu Virtual da Educação - que será feito do espólio do nado-morto Instituto Histórico da Educação? - onde pelo menos o manual da 2ª classe pode ser consultado.

Mais páginas aqui, aqui e aqui. Obrigado ao Santa Nostalgia. Quem me dera ter um PDF destes dois livros! Vou-me habilitar...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ricardo Montalbán (1920-2009)


Lembro-me vagamente dos seus filmes com Esther Williams ou Cyd Charrisse, lembro-me ainda mais vagamente de «Fantasy Island», mas lembro-me muito bem do seu papel de Khan no magnífico Star Trek III - The Wrath of Khan (1982)

Sarita Montiel - El Relicario

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008)


Conheci-o em 1985 em casa da Isabel Neto - outra amiga que já partiu - em Azeitão.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Luanda



Descobri nos papéis do passado africano da família esta fotografia inquietante. Provavelmente, pode-se datá-la de 1951, tendo em conta que assinala o luto pelo Presidente Carmona e exibe o cartaz de Craveiro Lopes.

Agradeço a José Pacheco Pereira tê-la publicado no Abrupto e os seus amáveis comentários e agradecimentos.

Agradeço também a Ferreira Fernandes tê-la descodificado.

Agora, só não percebo como é que ela foi parar a casa da minha avó, que veio para a «Metrópole» com cinco anos e nunca mais voltou a Angola!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aimé Césaire (1913-2007)

Partir.
Comme il y a des hommes-hyènes et des hommes-
panthères, je serais un homme-juif
un homme-cafre
un homme-hindou-de-Calcutta
un homme-de-Harlem-qui-ne-vote-pas

l'homme-famine, l'homme-insulte, l'homme-torture
on pouvait à n'importe quel moment le saisir le rouer
de coups, le tuer - parfaitement le tuer - sans avoir
de compte à rendre à personne sans avoir d'excuses à présenter à personne
un homme-juif
un homme-pogrom
un chiot
un mendigot

mais est-ce qu'on tue le Remords, beau comme la
face de stupeur d'une dame anglaise qui trouverait
dans sa soupière un crâne de Hottentot?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Fernanda Botelho (1926-2007)


"Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.

A geométrica forma dos meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
- as minhas coordenadas."

As Coordenadas Líricas (1951)

Da Autora, lembro-me de três romances - Calendário Privado, Xerazade e os Outros e Lourenço é Nome de Jogral - (que sempre aproximarei de um certo Abelaira) e da sua longa ausência: entre 71 e 97 nada publicou. Pertencendo ao grupo de escritores definitivamente consagrados aquando da Revolução, só treze anos depois desta volta a publicar. Mas isso já não acompanhei. A sua poesia, escassa mas sempre saudada - especialmente pelo seu companheiro de geração David Mourão-Ferreira (cf. Vinte Poetas Contemporâneos) - é antologiada por Jorge de Sena nas Líricas Portuguesas bem como por Maria Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro (Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977), que aliás transcrevem poemas dispersos (publicados na Távola Redonda (1952) e no Graal-II (1956)) .

A revisitar. Tentar ler os seus romances que nunca li: O Ângulo Raso, A Gata e a Fábula e Terra Sem Música. Os dos anos 80 e 90 talvez não valha a pena.

Julien Gracq (1910-2007)


"Fiche signalétique des personnages de mes romans :

Epoque : quaternaire récent.
Lieu de naissance : non précisé.
Date de naissance : inconnue.
Nationalité : frontalière.
Parents : éloignés.
Etat civil : célibataire.
Enfants à charge : néant.
Profession : sans.
Activités : en vacances.
Situation militaire : marginale.
Moyens d’existence : hypothétiques.
Domicile : n’habitent jamais chez eux.
Résidences secondaires : mer et forêt.
Voiture : modèle à propulsion secrète
Yacht : gondole, ou canonnière.
Sports pratiqués : rêve éveillé – noctambulisme."
(Lettrines)

Bibliografia portuguesa de Julien Gracq:

A Costa de Sirtes, trad. Pedro Tamen. Lisboa: Ed. António Ramos, 1979; Lisboa: Vega, s.d.
A Literatura no Estômago, trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Assírio e Alvim, 1987
Águas Estreitas, trad. Mª Jorge Vilar de Figueiredo. Lisboa: Assírio e Alvim, 2006