quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Agustina


Hoje que Agustina faz anos, adquiri uma das suas «obras invisíveis». Quando me tornei leitor de Agustina Bessa-Luís - em 1982, ano de Os Meninos de Ouro - sempre persegui fervorosamente o livro Embaixada a Calígula, editado em 1961 pela Livraria Bertrand. Nunca o encontrei. O facto de ser um livro de «literatura de viagens» e o facto de parte substancial da obra se fixar em Itália, outra das minhas obsessões - tudo isso me compelia para a obra e ela era inacessível.
Foi agora reeditada no âmbito da Opera Omnia em boa hora editada pela Guimarães.
Vou ler...








Esta era a capa original da edição que não se encontra em lado nenhum

domingo, 11 de outubro de 2009

As autárquicas

Lá fui votar e uma vez mais fui votar para a Assembleia de Freguesia e para dois «parlamentos» municipais: a Câmara Municipal e a Assembleia Municipal. O facto de não votarmos nem para a Junta de Freguesia - que emana da respectiva assembleia - nem para o Governo - que emana da Assembleia da República - torna a situação ainda mais caricata. Ao nível do município temos duas «assembleias», sendo que a propriamente dita tem diminutos poderes.
Apesar do novo texto da Constituição, os partidos ainda não se entenderem quanto à alteração da lei ordinária que permitiria uma única eleição a nível municipal, a da Assembleia. Assim, o 1.º candidato do partido mais votado seria eleito Presidente da Câmara Municipal e escolheria a vereação de acordo com o equilíbrio de forças presentes na Assembleia Municipal, dotada esta de poderes acrescidos de fiscalização. O melhor seria mesmo abolir a designação «Câmara Municipal» porque, de facto, «câmara» corresponde a «assembleia». Mas o nome tem longa tradição e é dos mais reconhecidos popularmente. E porque não chamar Alcaide ao Presidente da Câmara?
Por outro lado, a existência de câmaras municipais em que o vereador responsável, por exemplo, pelos lixos é de cor política diferente da do Presidente resulta em quê? Trata do lixo e dá votos à maioria ou não trata do lixo e não cumpre com as funções que lhe foram confiadas?

O fecho das urnas


Mas porque será que as eleições nos Açores não se iniciam uma hora mais cedo, de modo a podermos ter sondagens à boca das urnas logo às 19 horas?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Nos dez anos da morte de Amália (6 de Outubro de 1999) - Gaivota, de Alain Oulman e Alexandre O'Neill



AMÁLIA

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz.
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já,
há as sílabas da alma, e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida,
há um rastro de naufrágio em tua voz
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a Gaivota de O'Neil e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Manuel Alegre

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Anunciado Óscar honorário para Lauren Bacall


A mais bela mulher da história do cinema, "o mais belo animal do mundo", não é Marilyn Monroe ou Ava Gardner, Sofia Loren ou Catherine Deneuve. É, pura e simplesmente, Betty Joan Perske e passou à história e ao mito com o nome de LAUREN BACALL.

domingo, 13 de setembro de 2009

Honras de Panteão


Mas porque razão não teve Jorge de Sena Honras de Panteão?

sábado, 12 de setembro de 2009

Jorge de Sena - Regresso à Pátria


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya (25/6/1959), in Metamorfoses, Lisboa, 1963

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Biblioteca

O ficheiro da minha biblioteca pode ser consultado neste sítio.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Mário Soares sobre Manuela Ferreira Leite

O artigo de ontem de Mário Soares no Diário de Notícias mostra o que se pode esperar de um futuro Governo liderado por Manuela Ferreira Leite:

«A entrevista que a dra. Manuela Ferreira Leite concedeu à RTP1, que vi e ouvi com a maior atenção, constituiu, para mim, uma profunda decepção. Não esperava muito, confesso, dadas as intervenções que tem feito, desde que é líder do PSD. Mas foi pior do que supunha. De uma banalidade que, algumas vezes, roçou o patético.

Só falou dela própria. É uma pessoa séria, decidida, que tem o culto da verdade, que só faz o que deve e não abre concessões para ninguém, sejam amigos ou não. Já o sabíamos. Mas tudo isto é o pressuposto para qualquer político, que tenha princípios éticos e não seja um oportunista. Não precisava, portanto, de o dizer, muito menos tê-lo dito à saciedade. Seria mais subtil - e ficar-lhe-ia com certeza melhor - se mandasse dizer a outrem todos os auto-elogios com que entendeu dever mimosear-se...

Mas isso é uma questão de forma, mais ou menos elegante. O pior foi o conteúdo. Quanto à definição das políticas que entende dever promover, não se dignou dizer-nos nada de concreto. Um deserto de ideias. Como irão então decidir-se os eleitores nas escolhas a fazer? Não deu qualquer elemento novo. Limitou-se a apresentar a sua personalidade de moralista, como paladina da verdade e pura como uma vestal, em contraste com a do seu principal adversário, José Sócrates, a quem não se impediu de chamar "mentiroso" (sic), um termo pouco próprio num debate democrático entre adversários políticos. Com um olhar de mazinha ao canto do olho, que me surpreendeu...

Sendo economista de profissão e antiga ministra das Finanças, funções em que, aliás, não se destacou especialmente, esperar-se- -ia que Manuela Ferreira Leite revelasse algumas ideias novas para vencer a crise, que é, afinal, o que os portugueses querem acima de tudo saber. Mas não. Atirou a questão para um programa que há-de vir, para depois de Agosto, porque agora os portugueses não têm disposição para essas leituras. Manuela Ferreira Leite fala por si. Mas, que diabo, se não quer falar das questões de que é especialista, por as julgar enfadonhas em Agosto, será que trazia na manga do impecável vestido bege, que lhe ficava tão bem, alguns apontamentos sobre cultura, educação, ciência, ambiente, Europa, justiça, administração, Segurança Social, luta contra a criminalidade, defesa, luta contra o terrorismo, imigração, política no sentido mais estrito, relações partidárias, reforço da democracia? Nada! Realmente, não disse nada de jeito, sobre nenhum dos temas da actualidade que refiro. Então, perguntar-se-á: para que concedeu esta entrevista à RTP1, agora, em meados de Agosto, se não tinha ou não queria dizer nada? Apenas para se mostrar no seu encantador new look? Nesse aspecto, aceito que, dentro do possível, não tenha estado mal. Mas o pior é que não disse, aos seus compatriotas, nada do que eles esperavam e desejavam ouvir... Nesse aspecto, a entrevista foi uma verdadeira ocasião perdida!»

Mário Soares está melhor do que nunca. Os meus sublinhados sublinham a mordacidade com que trata M.F.L. Chapeau!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Gripe A


Uma das coisas positivas da Gripe A é pôr as pessoas a lavar as mãos - hábito que os portugueses pouco cultivam!

domingo, 2 de agosto de 2009

M. S. Lourenço (1936-2009)


Foi meu professor de Lógica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no ano lectivo de 1986-1987. Nessa altura, para mim, ainda não era M.S. Lourenço mas apenas o Prof. Manuel Lourenço. Dava as aulas teóricas da Cadeira expondo a «Teoria Clássica da Dedução» com ar distante, entediado talvez - tendo plena consciência do desinteresse da maior parte dos alunos pela disciplina. Só mais tarde percebi a importância da Lógica, a importância de Manuel Lourenço como verdadeiro fundador dos estudos de Lógica em Portugal e a importância de M. S. Lourenço. Do grupo de «O Tempo e Modo», M. S. Lourenço foi um notável poeta, um escritor de uma escrita inaudita em Portugal - O Doge, atribuído ao Arquiduque Alexis-Christian Von Ratselhaft und Gribskov e Os Degraus do Parnaso - e grande tradutor de Wittgenstein - o Tractatus e as Investigações Filosóficas -, de Goedel e de Joyce. Estudioso de Wittgenstein - tema da sua tese de doutoramento, Espontaneidade da Razão. A Analítica Conceptual da Refutação do Empirismo na Filosofia de Wittgenstein, era, reconhecidamente, um dos mais importantes filósofos no âmbito da Lógica e da Filosofia da Matemática . Andou por Inglaterra - onde foi aluno de Michel Dummett e de G. E. M. Anscombe -, EUA e Áustria. Era dos professores mais cultos e cosmopolitas do Curso. Morreu ontem. Era pai do escritor e grande helenista Frederico Lourenço.

Página de M. S. Lourenço na Internet (onde pode ser lida uma grande entrevista conduzida por Miguel Tamen)

P.S.: Desidério Murcho, que foi meu contemporâneo no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, presta-lhe uma significativa homenagem na Crítica.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Michael Jackson (1958-2009)


Nada a dizer... - nunca gostei da sua persona artística e não admiro a sua obra, mas reconheço a importância da sua contribuição para a história do pop, o seu talento e a sua longa carreira. R.I.P.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Registos Centrais

Actualizado Life on Mars?, de David Bowie

It's a God awful small affair
To the girl with the mousey hair
But her mummy is yelling, "No!"
And her daddy has told her to go
But her friend is no where to be seen
Now she walks through her sunken dream
To the seat with the clearest view
And she's hooked to the silver screen
But the film is a sadd'ning bore
For she's lived it ten times or more
She could spit in the eyes of fools
As they ask her to focus on

Sailors
Fighting in the dance hall
Oh man!
Look at those cavemen go
It's the freakiest show
Take a look at the lawman
Beating up the wrong guy
Oh man!
Wonder if he'll ever know
He's in the best selling show
Is there life on Mars?

It's on America's tortured brow
That Mickey Mouse has grown up a cow
Now the workers have struck for fame
'Cause Lennon's on sale again
See the mice in their million hordes
From Ibiza to the Norfolk Broads
Rule Britannia is out of bounds
To my mother, my dog, and clowns
But the film is a sadd'ning bore
'Cause I wrote it ten times or more
It's about to be writ again
As I ask you to focus on

Sailors
Fighting in the dance hall
Oh man!
Look at those cavemen go
It's the freakiest show
Take a look at the lawman
Beating up the wrong guy
Oh man!
Wonder if he'll ever know
He's in the best selling show
Is there life on Mars?

The Beatles - Something In The Way She Moves, de George Harrison (Abbey Road - 1968)

Dia de Portugal, Dia de Camões

Um país que tem como dia nacional o dia do seu poeta nacional. Um país que tem um poeta que fundou a língua e fundou a pátria. Um país que é Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

domingo, 7 de junho de 2009

Der Zauberberg




Finalmente!
Vou reler o meu Romance, o Romance por antonomásia, o Romance absoluto.