A notícia de que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social irá adquirir títulos de dívida pública portuguesa faz-nos lembrar um tempo em que Salazar também se financiava forçando as instituições de Previdência a comprar Obrigações do Tesouro, como os famosos Consolidados dos anos 40. A diferença está em que, nessa altura, a segurança social arrecadava muito e pagava pouco. Agora é o inverso.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
à rasca, II
O que aquela gente que se foi manifestar - e com toda a legitimidade - não percebeu, é que o protesto de um é antagónico do protesto do outro. Vi funcionários públicos desfilarem ao lado de «precários» que contestam o carácter «vitalício» da condição daqueles. Vi uma classe média que protestava contra os impostos, que irão pagar os vencimentos de alguns dos elementos dessa mesma classe média. Vi «artistas» a exigirem subsídios a serem pagos pelos «pequeno-burgueses» que ao seu lado caminhavam e protestavam. Vi professores a protestar - e com toda a legitimidade - contra o seu absurdo sistema de avaliação, ao lado de desempregados que não podem sequer fazer ideia que se possa protestar por uma coisa dessas. Vi anarcas, bloquistas, comunistas, nazi-fascistas, jotinhas diversos, reformados, pais de «precários» (que, muitos deles, nunca procuraram emprego nenhum), alguma vagabundagem. Une toda este gente um justificável ódio a José Sócrates. Convenhamos que, para programa político, é pouco. O day after é nada: a Revolução não é possível, nem desejada pela maior parte dos manifestantes. O passo seguinte é o passo habitual do nosso Rotativismo atávico.
quarta-feira, 2 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Jane Russell (1921-2011)
Antes do Gesto e do Peito das Sofias Loren, das Ginas Lollobrigida, das Silvanas Mangano e das Claudias Cardinale havia o que a Russel Antiga Mostrava
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Essenciais, 11
"Terras de Portugal que dão rochedos,
A urze, a inveja, o ódio... e pouco mais"
Teixeira de Pascoaes, Sempre
A urze, a inveja, o ódio... e pouco mais"
Teixeira de Pascoaes, Sempre
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Livro do ano de 2010 - Novelas Exemplares, de Cervantes
Não é pedantismo nem pose estudada, corolário de muitas ignorâncias - garanto. Mas não consigo imaginar que o livro do ano de 2010 (ainda que do final dele) possa ser outro que não a nova tradução das Novelas Ejemplares, de Miguel de Cervantes Saavedra, mais de cinquenta anos depois da «versão» de Mestre Aquilino. Vou mergulhar.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Reduções remuneratórias
A propósito das reduções dos vencimentos dos funcionários públicos, decretadas pelo artigo 19.º da Lei n.º 55-A/2010, de 31 de Dezembro, que aprovou o Orçamento do Estado para 2011, recorde-se o que escreveu Marcello Caetano a páginas 759 do II volume do seu incontornável Manual de Direito Administrativo. Segundo o famoso administrativista, a redução salarial "importaria para o funcionário uma degradação ou baixa de posto que só se concebe como grave sanção penal."
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Matthew Lipman (1922-2010)
Morreu o criador da Filosofia para Crianças. Sempre me fez muita impressão esta coisa de dar dignidade filosófica às interrogações naturais, ainda que de teor vagamente metafísico, bem como às perplexidades semânticas das crianças. O pensamento filosófico assenta no trabalho conceptual e argumentativo - para o qual existem técnicas susceptíveis de serem aprendidas - sobre os problemas. Os problemas são, hegelianamente, a colheita da tarde; as crianças são a manhã do Mundo. «A ave de Minerva só levanta voo ao entardecer.»
Resistência
Habituados a viver no seio de uma ampla maioria católica e, dentro desta, apenas e só da Igreja Latina, é-nos difícil imaginar a situação vivida pelas minorias significativas de cristãos - e não apenas de católicos - que convivem com outras religiões claramente maioritárias, designadamente no Médio Oriente. Mais grave ainda do que o relativo desconhecimento que, no Ocidente, temos desta situação, é a própria dificuldade de nos vermos como minoria.
O recente atentado contra fiéis da Igreja Ortodoxa Copta - umas das «Antigas Igrejas do Oriente - em Alexandria, vem chamar a atenção para a situação aflitiva em que vivem estas comunidades religiosas um pouco por todo o Oriente. Greco-Ortodoxos, Maronitas (católicos), Assírios (Igreja Assíria do Oriente) e Caldeus (católicos), Sírios e Greco-Melquitas, Arménios e Coptas (ortodoxos e católicos), Sírio-Malabares e Sírio-Malankares na Índia e Greco-Católicos na Ucrânia, Latinos no Oriente e na Terra Santa, na Rússia e na China constituem-se como autênticas igrejas da Resistência no seio de esmagadoras maiorias muçulmanas, hindus ou mesmo de outras denominações cristãs (caso da Igreja Ortodoxa Russa que pretende ter o monopólio da pregação no Oriente eslavo) ou vítimas do poder totalitário do Estado (caso da situação da Igreja Católica Romana na China).
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
O silêncio da Esfinge
Diz Eduardo Pitta sobre a Mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva:
"Mais valia que tivesse vindo explicar aos portugueses em que circunstâncias comprou 105.378 acções de uma empresa não cotada em bolsa — a Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN —, as quais vendeu depois com 144% de lucro, operação que lhe rendeu a mais-valia de 147.500 euros. (A da filha foi de 209.400 euros.) Negócios privados, públicas virtudes. OK.
Se isto se tivesse passado com Sócrates ou algum dirigente do PS, o colunismo filet mignon estaria a arrancar as vestes, pedindo a dissolução do Parlamento e o julgamento sumário do primeiro-ministro. Como é com Cavaco, Presidente da República, ninguém pergunta o óbvio: onde comprou? a quem? quem deu a ordem de compra? quem vendeu e a quem? quem determinou a valorização de 1 para 2,4 euros por acção? E como, se o BPN era uma ficção?"
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
A escola e a democracia: alguns equívocos
Um dos erros mais frequentes da sociedade hodierna é considerar que, por ser democrática - e por não se conceber viver, hoje, numa sociedade que o não seja - todas as instituições e formas de expressão cultural têm de assentar numa qualquer forma de legitimação democrática. A escola não é democrática. A atribuição de um prémio literário ou artístico ou a simples apreciação estética não assenta num qualquer sufrágio democrático. A organização interna de um clube ou de uma igreja (ou mesmo de um partido, mas aqui com especiais cuidados) a que se pertence livremente e de que se sai de forma igualmente livre não tem de reproduzir todo o protocolo democrático exigível para a relação do Estado com os cidadãos.
Este erro é altamente pernicioso em si mesmo e também pela sua larga difusão, tendo-se apoderado, literalmente, do argumentário popular e ideológico contemporâneo.
Este erro é altamente pernicioso em si mesmo e também pela sua larga difusão, tendo-se apoderado, literalmente, do argumentário popular e ideológico contemporâneo.
A sociedade é e deve ser democrática, não só na exacta medida em que "o poder está nas mãos, não de uma minoria, mas do maior número de cidadãos " segundo o enunciado de Túcidides (II, 37), mas também porque a sociedade se dotou de um sistema de "checks and balances" para aquilo que é comum a todos. Tal sistema, assumido na versão continental da separação dos poderes ou na versão anglo-saxónica da supremacia do Parlamento e da rule of law visa assegurar as liberdades individuais, protegendo-nos da «ditadura da maioria». Aquilo que é comum deve ser do interesse e da participação de todos. E à objecção antidemocrática de que o poder envolve um saber que não está ao alcance de todos deve ser devolvida a noção de que a decisão sobre aquilo que é comum deve ser propriedade plena do detentor do sensus comunis, isto é, do povo e a ideia (popperiana) de que a democracia não serve para colocar no poder os melhores, mas para retirar do poder aqueles que já não nos interessam.
Nada no princípio democrático obriga a que, numa sociedade democrática, todas as instituições e formas de expressão devam ser, ipso facto, democráticas. Por muito que almas caridosas o reclamem, a escola, por exemplo, não é nem deve ser democrática. Uma escola é o lugar da transmissão - palavra que arrepia os cabelos aos "pedagagos" -, da translatio studii da tradição e dos saberes. Transmitem os que sabem, isto é, os mestres que são, em regra, os mais velhos. Assim, uma escola não é democrática mas, pelo contrário, é e deve ser aristocrática e gerontocrática. Nela devem mandar os professores, porque sabem e apenas na exacta medida em que sabem. Os mais novos, os alunos, são os que não sabem e que, por definição estão aptos para o saber. Tal posição em nada os diminui, antes pelo contrário: liberta-os para o saber. Os projectos educativos, os projectos curriculares e os regulamentos internos das nossas organizações escolares deviam assentar sobre esta evidência. Mas eu sei que não é assim. Eu sei que se valorizam os «saberes» que as crianças e alunos já "transportam", mesmo que tais saberes sejam paupérrimos e redundantes. Eu sei que a transmissão é uma palavra sem valor no mercado pedagógico. Eu sei que a ideia do professor como instância do saber e, portanto, do poder está fora de moda. Eu sei que assumir que a escola e a sala de aula não são nem nunca foram democráticas simplesmente porque não podem ser tal, não tem direito de cidadania nos tempos actuais. Hélas!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Pisa-papéis
A melhoria dos resultados dos alunos portugueses no Programme for International Student Assessment (PISA), ontem divulgados, não terão alguma coisa a ver, também, com as aulas de substituição ou com o Plano de Acção para a Matemática, entre muitas outras medidas do consulado de Maria de Lurdes Rodrigues?
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