terça-feira, 22 de junho de 2010

Ditosa Pátria

"Estamos em vida fictícia como país independente. Somos como o sapateiro que se veste de príncipe no Entrudo. Pois bem! Comédia geral! Seja Portugal um teatro desde Monção ao Cabo da Roca!"


Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo (1866)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ídolos


Coluna, Chico Buarque e Eusébio

(com a devida vénia a Ana Cristina Leonardo)

Censuras

"Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusíadas de Luís de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Ásia & Europa, e não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade de navegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hua fição dos Deoses dos Gentios. (…) Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poético não tivemos por incoveniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salva a verdade da nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demónios."

Frei Bartolomeu Ferreira, O.P.

Saramago antes de Saramago



Lembro-me de ter visto A Noite no velho teatro da Academia Almadense pelo Grupo de Campolide - que ainda não se chamava Companhia de Teatro de Almada -, numa encenação de Joaquim Benite. Tinha uma fabulosa cenografia, simulando a redacção e impressão de um jornal e passava-se durante a noite do 25 de Abril de 1974. Nunca mais esqueci e até aí não sabia que o teatro podia ser tão "cinematográfico". 
Lembro que vi, logo depois, Que farei com este livro?, com Canto e Castro.
Da segunda peça retenho as idas de Camões à Inquisição e o famoso parecer de Frei Bartolomeu Ferreira, as actuações de Canto e Castro e de Ema Paul e o carácter datado do tom e do discurso.

domingo, 20 de junho de 2010

Na morte de Saramago

Um asco, o artigo "L'onnipotenza (presunta) del narratore" no  L'Osservatore Romano de hoje, a contrastar com o texto sereno da Igreja portuguesa: "O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura expressa o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura. José Saramago ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres.
Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar. O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença." (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura).

Muito bem, a blogosfera portuguesa - mesmo a de direita (31 de Armada, incluído; menos bem o Blasfémias).
Muito mal, o senhor Presidente da República, a mostrar a sua total falta de grandeza humana e de Estadista: "Sendo um momento importante para o Estado português, ninguém faria questão que lá estivessem o Aníbal ou o Cavaco. Mas o Presidente da República, esse, nunca poderia faltar à última homenagem ao único prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa. A um dos mais importantes escritores do século XX. Àquele que, com Pessoa, atingiu maior notoriedade internacional. É incoerente decretar dois dias de luto nacional e depois estar ausente da cerimónia oficial.
Cavaco Silva mostrou este fim-de-semana que, mesmo no cargo que ocupa, não consegue ser mais do que ele próprio. Não consegue representar o País. E um Presidente que não está acima da sua pequenez, que não percebe a grandeza de um cargo que o transcende, é e será sempre um mau Presidente." (Daniel Oliveira).

Muito mal o pateta que dá pelo nome de Duarte Pio, a quem muita gente insiste em tratar por "dom". Mas ser infeliz é o seu destino.

Muito bem a selecção nacional e a federação portuguesa de futebol.

*

Um dia destes quero escrever sobre Saramago. O escritor venerado por tantos, de Eduardo Lourenço a George Steiner, de Harold Bloom a Susan Sontag, mas desprezado pelos medíocres que ninguém conhece do outro lado da sua própria rua.

Gostaria de destacar os belíssimos textos de Francisco José Viegas e de Manuel Gusmão. Transcrevo o do primeiro:
"A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua «intervenção cívica» — mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo, onde entrará Manual de Pintura e Caligrafia, por exemplo, um livro injustamente esquecido, e essa «trilogia do cânone» [Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a Cegueira] e  onde estão inscritas as linhas de quase toda a sua obra: a atenção aos pequenos personagens (quase anónimos, quase insignificantes), o absurdo da História, a ideia de epopeia, a fragilidade do humano e do humanismo.
Tanto em Levantado do Chão como em Memorial do Convento ou em Todos os Nomes, os seus grandes personagens são essencialmente humildes, anónimos e colhidos (e escondidos) da massa da multidão. Baltazar e Blimunda em vez do rei que manda construir o convento de Mafra; os camponeses e o cão atravessando os campos do Alentejo e ressuscitando no final, em vez dos «exemplos de classe"; uma mulher anónima e discreta que enfrenta a cegueira do mundo e interpreta as suas metáforas. Mesmo o amor, mesmo o amor: é uma das suas mais belas histórias de amor, a de História do Cerco de Lisboa, a que é vivida pela editora e pelo revisor — ele, mais uma vez, o homem anónimo, humilde, modesto, que representa toda a modéstia e toda a humildade dos homens e mulheres sem história (à maneira de Gogol; ou encarando o absurdo, como Kafka).
Creio, acreditei sempre — e escrevi-o — que Saramago era um homem extremamente religioso. Só um homem religioso pode rondar a blasfémia e interrogar directamente a figura de um Deus «humanamente injusto». O resto é polémica, passagem, indignações. O que passará à eternidade é isso: talento, trabalho, dedicação" (Francisco José Viegas).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)


Prémio Camões

Prémio da Associação de Críticos Portugueses
Prémio Cidade de Lisboa
Prémio PEN Clube Português
Prémio Literário Município de Lisboa
Prémio da Crítica (Associação Portuguesa de Críticos)
Prémio Dom Dinis
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores
Prémio Consagração SPA (Sociedade Portuguesa de Autores)
Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (APE)

Prémio Grinzane-Cavour
Prémio Internacional Ennio Flaiano
Prémio do jornal The Independent
Prémio Internacional Literário Mondello (Palermo)
Prémio Literário Brancatti (Zafferana/Sicília)

A minha geração, 1

Para a krida

quarta-feira, 16 de junho de 2010

As sinecuras


A extinção dos governos civis é uma boa ideia. Não se percebe, sequer, a razão da sua permanência. Ou melhor, percebe-se: acabam por ser mais uns lugares para quem não conseguiu ser eleito Deputado, não arranjou lugar no Governo ou nos gabinetes ou não alcançou uma câmara municipal. Tendo perdido grande parte das suas competências próprias - a maior parte delas absorvidas pelas autarquias locais - permanecem algumas funções que podem ser desempenhadas por qualquer outro serviço existente, como seja a emissão de passaportes ou a autorização para o uso de alarmes. Esta foi, aliás, uma das últimas competências atribuídas ao órgão, como que a tentar dar-lhe algum conteúdo. Ridículo!
Pode não ser significativa a diminuição de despesa - governador, nalguns casos vice-governador, conselho, staff, o próprio serviço - mas daria um sinal quanto à necessidade de abolição de sinecuras injustificáveis.
Provavelmente, é necessário alterar a Constituição (artigo 291.º) mas a coisa pode resolver-se imediamente pela não designação de novos titulares e a distribuição das suas funções pelas lojas do cidadão, IMTT, municípios e freguesias, associações de municípios, juntas metropolitanas, outros serviços do Estado, etc.
Aliás, Lisboa ficou, de repetente, muito perto. Os governadores civis ficarão na memória dos povos e podem ser, sempre, revisitados - juntamente com os regedores - em Camilo, em Júlio Dinis ou n'A Ilustre Casa de Ramires de Eça.
(Bandeira do governador civil)

Futebóis

A minha selecção é o Benfica.

Amália - La Tarantela

E já que ando em maré de língua napolitana, eis Amália a cantar em Nápoles como se tivesse lá nascido:



Projecto para o Verão: férias no Sul de Itália e/ou na Sicília - quero ver o "mundo" de Lampedusa, Pirandello, Vittorini, Sciascia e do grande Andrea Camilleri.

domingo, 13 de junho de 2010

Anna Magnani - O Surdato 'Nnamurato


 


La Magnani no filme La Sciantosa (1971). Se, como disse Fellini, Anna Magnani é Roma e Roma é a minha cidade favorita, tenho de voltar a ambas um dia destes.

A interpretação de Massimo Ranieri é magnífica (melhor de que as dos próprios tenores Pavarotti e Bocelli), num napolitano cristalino:



Massimo Ranieri também entra em La Sciantosa e toca guitarra na cena apresentada.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Registos Centrais

O meu livro da 2.ª classe no Museu Virtual da Educação (actualizando este post já antigo).

Para a História da Educação em Portugal, II


O Decreto-Lei n.º 27 279, de 24 de Novembro de 1936 é todo um programa: a ideia de que "o ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever, contar, e a exercer as virtudes morais de um vivo amor a Portugal"; a desvalorização do diploma de professor "tantas vezes só decorativo", o elogio do posto escolar "escola aconchegada da terra pequenina, onde outra maior se tornaria desproporcionada, ao mesmo tempo que, pelo desperdício, inimiga da restante terra portuguesa"; a instrumentalização dos inspectores escolares.

António Manuel Couto Viana (1923-2010) e os escritores conservadores

Morreu há uns dias aquele que era, provavelmente, o último sobrevivente da geração da Távola Redonda (David Mourão-Ferreira, Fernanda Botelho, Alberto de Lacerda, entre outros). Este poema - tardio - representa todo o programa de vida de Couto Viana:

"O poeta e o mundo

Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão p'ra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim - só falo
Daquilo que conheço.
O resto... calo

E esqueço."

(Uma vez uma voz, 1985)

P.S.: Eduardo Pitta presta-lhe, também hoje, homenagem.

*

Não é, propriamente, o caso de Couto Viana, mas há alguns escritores de tradição conservadora que me interessam (para além, obviamente, de Agustina Bessa-Luís).
O primeiro é Joaquim Paço d'Arcos, de quem tenho lido umas magníficas short stories (Neve sobre o Mar, O Navio dos Mortos e Outras Novelas e Carnaval e Outros Contos, etc.) e de quem espero ler o ciclo de seis romances de «Crónica da Vida Lisboeta» e a Cela 27. Em miúdo tinha lido as Memórias duma Nota de Banco. O Autor - outrora muito lido e responsável por haver tantas «Anas Paulas» - tinha mau nome, em parte justificado pelo seu apoio à intervenção da Legião Portuguesa na Sociedade Portuguesa de Escritores e à posterior extinção da mesma, consubstanciado num célebre panfleto. Sei que Paço d'Arcos tinha boa relação com escritores da Oposição - possuo um exemplar de Nus e Suplicantes de Urbano Tavares Rodrigues, em que um dos contos lhe é dedicado, dedicatória essa que é retirada em ulteriores reedições. Sei também - e devo-o a uma conferência de Eduardo Lourenço - que o encostar de Paço d'Arcos à extrema-direita do Regime assentou, em grande parte, num equívoco. Aliás, para além do célebre cosmopolitismo do Autor e do português enxuto é, por exemplo, o erotismo da sua escrita e das suas imagens o que mais o faz estranhar nessa tradição conservadora. Um pouco como Pedro Homem de Mello, embora num registo inverso.
Outros casos são Luís Forjaz Trigueiros - excelente contista -, Tomaz de Figueiredo - cujo vernaculismo é, para mim, um obstáculo como o são Aquilino Ribeiro e João de Araújo Correia -, o escritor católico Francisco Costa, bem como a romancista e ensaísta Esther de Lemos, ainda viva.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Passagens Canónicas, IV - O Conde d'Abranhos, de Eça de Queirós

"O ministério Cardoso Torres, ao fim da última sessão parlamentar, estava gasto. Esta expressão a que eu chamaria, se me não contivesse o respeito, a «gíria constitucional», refere-se a um fenómeno venerável e repetido, que eu nunca compreendi bem, apesar das explicações benévolas que me foram dadas por conservadores, republicanos e cépticos.
Há ministérios que se gastam. E todavia, esses ministérios, como os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente das secretarias com suficiente regularidade, mantêm no país uma ordem benéfica, não oprimem nem a imprensa nem a consciência, são respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade, ao Alto de S. João, todos os defuntos ilustres, falam nas Câmaras com honrosa correcção, são na vida privada cidadãos estimáveis, e no entanto – ao fim de alguns meses desta rotina honesta, pacata e higiénica – gastam-se.
Gastam-se porquê? Compreende-se que um ministério que luta com dificuldades, que se coloca ao través da opinião pública, se gaste, como ao través de um frágil estacado que uma corrente hostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente para resolver certas questões sociais ou políticas, se torne desnecessário, desde que as tenha resolvido, e fique como o zângão que fecundou a abelha e é daí em diante um inútil.
Mas quando se não dá nenhuma destas hipóteses, quando os ministros não foram trazidos do seio da sua família para resolver questões sociais, – ou porque as não haja, ou porque seja um princípio tacitamente estabelecido deixá-las sem resolução – quando, em lugar de se esforçarem contra a larga corrente da opinião, os ministros lhe bolam regaladamente no dorso, não compreendo como um ministério se possa gastar.
Um dia pedi respeitosamente ao Conde d'Abranhos a explicação da palavra e do fenómeno, e S. Exª, o que raras vezes sucedia, deu uma resposta vaga, tortuosa, reticente:
– É uma coisa que se sente no ar. É um não sei quê... Sente-se que a situação está gasta...
Não me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento, guardo um secreto terror por este fenómeno incompreensível!
O ministério Cardoso Torres estava portanto gasto. Calculava-se que ele pudesse talvez sobreviver durante grande parte da próxima sessão, mas, para o fim de Abril, devia desaparecer subitamente, como tinham desaparecido os Bexigosos e a corveta Saragoça!"

(Imagem retirada, com a devida vénia, da Colóquio/Letras, n.º 73 - Maio de 1983)

Lá vem o disparate, 2

Lá vem mais um 10 de Junho e lá vem mais um rol de condecorações pátrias. Nunca percebi porque é que tanto militar arrebanha condecoração, a maior parte dos casos apenas porque se chegou a oficial superior ou general. A tão falada banalização das agraciações mantém a incólume tradição de premiar banalidades. António Sala? Fernando Alves? Rosa Lobato Faria (atribuição póstuma a uma vulgaríssima escritora)? Eunice Muñoz, pela terceira vez? Uma pesquisa nas bases de dados da Chancelaria das Ordens Honoríficas Portuguesas permite ter noção do desvario.

Justíssima a atribuição, a título póstumo, a José Luís Saldanha Sanches da Ordem da Liberdade. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos.

MP


Será que amanhã, em Aveiro, também haverá saudações romanas?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Tom Jones - What's New Pussycat?



70 anos feitos hoje, grande Tom Jones!

Lá vem o disparate, 1


Porra!

Licença Graciosa

Pedro Sales certeiro, sobre as «férias de Estado» de Cavaco na Capadócia.

Ao mesmo tempo, o Ministro da Economia, Vieira da Silva, perdeu uma boa oportunidade de estar calado. Isto de um Ministro vir a correr tecer comentários ao que diz o Chefe de Estado chega a ser ridículo.

O problema não é os portugueses passarem férias no estrangeiro. Antigamente - "antigamente, sim", dizia a Agustina - ia-se de férias a Paris, a Londres, ver a Civilização. O problema é que os portugueses trocaram o Algarve da sua transumância por lugares chamados Punta Cana, Porto Galinhas e quejandos.